Boa tarde de sábado,
Como coloquei no meu último comentário na entrada anterior do blog, escolhi dos escritores que são reconhecidos internacionalmente por sua obra, refiro-me a José Maria Eça de Queirós e a Mia Couto.
Exercício. Leiam a informação a seguir sobre os dois escritores e o início de um conto de cada um deles. Depois procurem na web os contos completos e leiam-nos, vocês podem colocar seu comentário no blog depois da Semana Santa.
Lembrem-se que na quarta-feira, 29 de março vamos fazer a atividade "Café Literário", na qual vocês vão ler seus contos.
Eça de Queirós (1845-1900) foi um escritor português. "O Crime do Padre Amaro" foi o seu primeiro grande trabalho, um marco inicial do Realismo em Portugal. Foi considerado o melhor romance realista português do século XIX. Foi o único romancista português que conquistou fama internacional nessa época. Foi duramente criticado por suas críticas ao clero e à própria pátria. A crítica social unida à análise psicológica aparece nos livros "O Primo Basílio", "O Mandarim", "A Relíquia" e "Os Maias".
Eça de Queirós (1845-1900) nasceu no dia 25 de novembro, na cidade de Póvoa de Varzim, Portugal. Seus pais, o brasileiro José Maria Teixeira de Queirós e a portuguesa Carolina Augusta Pereira de Eça, casaram-se quatro anos após seu nascimento. Esse fato fez com que o ocultassem por muito tempo. Passou sua infância e adolescência longe da família, sendo criado pelos aós paternos. Foi interno no Colégio da cidade do Porto. Ingressou em 1861 na Universidade de Coimbra, onde em 1866 se formou em Direito. Manteve ligação com Antero de Quental e Teófilo Braga, da chamada "Escola Coimbrã", mas só filiou-se ao grupo em 1870.
Exerceu a advocacia e o jornalismo em Lisboa. Em 1867, dirigiu na cidade de Évora, o jornal de oposição “O Distrito de Évora”. Voltou para Lisboa e revelou-se como escritor no folhetim “Gazeta de Portugal”. Em 1869, como jornalista, assistiu a inauguração do Canal de Suez, no Egito, que resultou na obra “O Egito”. Em 1871, com a colaboração do escritor Ramalho Ortigão, escreveu a novela policial "O Mistério da Estrada de Sintra", e nesse mesmo ano lançou um folheto mensal "As Farpas", contendo sátiras à sociedade portuguesa e suas instituições.
Em 1871, Eça de Queirós profere em conferência o tema "O Realismo Como Nova Expressão de Arte", no Cassino de Lisboa. Em 1872 ingressa na carreira diplomática, é nomeado cônsul em Havana, e em 1874 é transferido para a Inglaterra.
O romance "O Crime do Padre Amaro", publicado em 1875, foi o marco inicial do Realismo em Portugal, nele, Eça faz uma crítica violenta da vida social portuguesa, denuncia a corrução do clero e da hipocrisia dos valores burgueses. A crítica social unida à análise psicológica aparece também no romance "O Primo Basílio", publicado em 1878, em "Mandarim", 1880, e em "Relíquia", 1887.
Em 1885 visita, em Paris, o escritor francês Émile Zola. Casa-se com Emília de Castro Pamplona Resende, em 1886. O casal teve dois filhos, Maria e José Maria. Em 1888 foi nomeado cônsul em Paris, ano que publica "Os Maias". Nesse romance observa-se uma mudança na atitude irreverente de Eça de Queirós, segundo o crítico João Gaspar Simões, o autor "deixa transparecer os mistérios do destino e as inquietações do sentimento, as apreensões da consciência e os desequilíbrios da sensualidade”.
Surge então uma nova fase literária, em que Eça deixa transparecer uma descrença no progresso. Manifesta a valorização das virtudes nacionais e a saudade da vida no campo. É o momento dos romances "A Ilustre Casa de Ramires" e "A Cidade e as Serras", o conto "Suave Milagre" e as biografias religiosas.
José Maria Eça de Queirós morreu em Paris, França, no dia 16 de agosto de 1900
SINGULARIDADES DE UMA RAPARIGA LOURA
Começou por me dizer que o seu caso era simples — e que se chamava Macário…
Devo contar que conheci este homem numa estalagem do Minho. Era alto e grosso: tinha uma calva larga, luzidia e lisa, com repas brancas que se lhe eriçavam em redor: e os seus olhos pretos, com a pele em roda engelhada e amarelada, e olheiras papudas, tinham uma singular clareza e rectidão — por trás dos seus óculos redondos com aros de tartaruga. Tinha a barba rapada, o queixo saliente e resoluto. Trazia uma gravata de cetim negro apertada por trás com uma fivela; um casaco comprido cor de pinhão, com as mangas estreitas e justas e canhões de veludilho. E pela longa abertura do seu colete de seda, onde reluzia um grilhão antigo — saíam as pregas moles de uma camisa bordada.
Era isto em Setembro; já as noites vinham mais cedo com uma friagem fina e seca e uma escuridão aparatosa. Eu tinha descido da diligência, fatigado, esfomeado, tiritando num cobrejão de listras escarlates.
Vinha de atravessar a serra e os seus aspectos pardos e desertos. Eram oito horas da noite. Os céus estavam pesados e sujos. E, ou fosse um certo adormecimento cerebral produzido pelo rolar monótono da diligência, ou fosse a debilidade nervosa da fadiga, ou a influência da paisagem escarpada e chata, sobre côncavo silêncio nocturno, ou a opressão da electricidade que enchia as alturas, o facto é que eu — que sou naturalmente positivo e realista — tinha vindo tiranizado pela imaginação e pelas quimeras. Existe no fundo de cada um de nós, é certo — tão friamente educados que sejamos — um resto de misticismo; e basta às vezes uma paisagem soturna, o velho muro de um cemitério, um ermo ascético, as emolientes brancuras de um luar — para que esse fundo místico suba, se alargue como um nevoeiro, encha a alma, a sensação e a ideia, e fique assim o mais matemático, ou o mais crítico, tão triste, tão visionário, tão idealista — como um velho monge poeta. A mim, o que me lançara na quimera e no sonho fora o aspecto do Mosteiro de Restelo, que eu tinha visto, na claridade suave e outonal da tarde, na sua doce colina. Então, enquanto anoitecia, a diligência rolava continuamente ao trote esgalgado dos seus magros cavalos brancos, e o cocheiro, com o capuz do gabão enterrado na cabeça, ruminava no seu cachimbo — eu pus-me elegiacamente, ridiculamente, a considerar a esterilidade da vida: e desejava ser um monge, estar num convento, tranquilo, entre arvoredos, ou na murmurosa concavidade de um vale, e enquanto a água da cerca canta sonoramente nas bacias de pedra, ler a «Imitação», e, ouvindo os rouxinóis nos loureirais, ter saudades do Céu. — Não se pode ser mais estúpido. Mas eu estava assim, e atributo a esta disposição visionária a falta de espírito — a sensação — que me fez a história daquele homem dos canhões de veludinho.
https://contosdocovil.wordpress.com/2008/06/10/singularidades-de-uma-rapariga-loura/

Mia Couto
Mia Couto (pseudônimo de Antônio Emílio Leite Couto) nasceu em Beira, Moçambique, na África, no dia 05 de julho de 1955. Sua paixão por gatos o fez adotar o pseudônimo de Mia. Filho de imigrantes portugueses, com 14 anos teve seus poemas publicados no jornal “Notícias da Beira”. Em 1971 muda-se para a capital Lourenço Marques (hoje Maputo), onde estudou Medicina, sem concluir o curso. Exerceu a função de jornalista na “Tribuna” e no “Jornal de Notícias”. Foi diretor da Agência de Informações de Moçambique.
Em 1983, Mia Couto publica seu primeiro livro de poesias “Raiz de Orvalho”, onde aborda as representações dos sonhos para refazer a memória do país e recuperar a identidade que o processo de colonização desmantelou. Em 1992, publicou “Terra Sonâmbula”, que foi considerado um dos melhores livros africanos do século XX. É um romance escrito em prosa poética, que compõe uma bela fábula que nos ensina a sonhar, mesmo nas condições mais adversas. Nos versos de “Poema Mestiço”, Mia Couto busca a identidade, além de uma esperança que é depositada no futuro, expressando o desejo de mudança.
Além de ser considerado um dos mais importantes escritores de Moçambique, tem seus livros traduzidos em diversos países. Entre outros obras, publicou "Tradutor de Chuva” (2011).
A CARTA
[Mia Couto]
A velha dobrou as pernas como se dobrasse os séculos. Ela sofria doença do chão, mais e de mais se deixando nos caídos. Amparava-se em poeiras, seria para se acostumar à cova, na subfície do mundo?
- Me leia a carta. Me entregava o papel marrotado, dobrado em mil sujidades. Era a Carta de seu filho, Ezequiel. Ele se longeara, de farda, cabelo no zero. A carta, ele a enviara fazia anos muito coçados. Sempre era a mesma, já eu lhe conhecia de memória, vírgula a vírgula.
- Outra vez, mamã Cacilda?
- Sim, maistravez.
Sentei o papel sob os olhos, fingi acarinhar o desenho das letras. Quase nem se viam, suadas que estavam. Dormiam sob o lenço de Cacilda, desde que chegara a guerra. Essas letras cheiram a pólvora, me rodilham o coração. Era o dito da velha.
- Me leia a carta. Me entregava o papel marrotado, dobrado em mil sujidades. Era a Carta de seu filho, Ezequiel. Ele se longeara, de farda, cabelo no zero. A carta, ele a enviara fazia anos muito coçados. Sempre era a mesma, já eu lhe conhecia de memória, vírgula a vírgula.
- Outra vez, mamã Cacilda?
- Sim, maistravez.
Sentei o papel sob os olhos, fingi acarinhar o desenho das letras. Quase nem se viam, suadas que estavam. Dormiam sob o lenço de Cacilda, desde que chegara a guerra. Essas letras cheiram a pólvora, me rodilham o coração. Era o dito da velha.
retirado de: http://culturadetravesseiro.blogspot.mx/2009/01/contos-mia-couto-sangua-da-av-carta.html


