Visto que a próxima macro-tarefa será "Escrever uma peça de teatro", vamos conhecer um dos escritores mais importantes do teatro português.
Gil Vicente
retirado de: http://www.cet-e-quinhentos.com/autores
Entre 1502 e 1536, Gil Vicente faz na corte de Portugal o melhor e mais avançado teatro da Europa cristã do seu tempo. Para um mundo novo, transforma de raiz um modelo que o tempo produzira. O autor (talvez ourives de primeiro ofício) terá trabalhado no teatro dos trinta e dois aos sessenta e seis anos da vida. No princípio do período manuelino, o trabalho de Gil Vicente foi instigado, apoiado e pago pela rainha Lianor, irmã de Manuel I e viúva de João II. Morto o rei Manuel em 1521, sucede-lhe o filho João III, que, como o pai e a tia, manda fazer teatro no paço. O primeiro terço do século XVI é o tempo de apogeu da corte de Portugal como centro de um movimento de expansão que abrange a África, a Índia e o Brasil. Lisboa torna-se um lugar de luxo e arte que só tem rival na corte do Papa. O teatro recorta-se como prática limitada e como mercadoria. Uns ordenam e outros representam. Num sistema novo de divisão do trabalho artístico, emergem ofícios em busca de legitimação: autores e actores. Compradores encomendam produtos com prazos e medidas, paga-se a quem faz e o teatro tenta equilibrar oferta e procura de arte. No teatro de Gil Vicente, auto é um nome comum que designa cerca de cinquenta produções teatrais: moralidades, farsas, comédias. Cada auto é a apresentação de um programa para acção de corpos. Existe como monumento especioso em festas religiosas e seculares. Sabe dos autos anteriores, da corte onde se faz, do mundo. Mas não é só memória acumulada. É movimento e nova invenção. O trabalho de Gil Vicente implica imaginar um projecto de auto, escolher e montar materiais, escrever e ensinar versos novos, achar um modo para vestir os actores, escolher ou fabricar o aparato, conhecer o espaço em que vai trabalhar, com entradas, saídas e mais formas. É preciso também fazer ou escolher as músicas. O conjunto dos autos forma uma série homogénea de acções textuais de corpos vivos: autor, actores e mais quem vê. O autor é fundador e proponente. Os actores são corpos que mexem no espaço e produzem sequências de imagens e sons. Gil Vicente é autor e actor. Desde o primeiro auto, dá-se a ver e a ouvir, expondo o próprio corpo feito texto. Não se sabe quem são os outros actores. Aliás, de todo este trabalho de teatro ficou pouca memória. Nenhum pintor, ao que parece, representou um momento a fazer-se. Quase ninguém contou por escrito como foi. Diogo do Couto, Garcia e André de Resende, o cardeal Aleandro falaram da sua realidade, mas pouco contaram. De qualquer modo, por muita memória que tivesse ficado, o que se poderia sempre dizer dos autos de Gil Vicente é que houve muitos e não há nenhum. São acções perdidas porque o trabalho de teatro não fica todo na memória digital. Quase tudo o que hoje se sabe do teatro de Gil Vicente vem da Copilaçam de todalas obras, impressa em 1562 e organizada pelos filhos Luís e Paula, e de alguns folhetos anteriores, impressos em vida e à vista do autor, por vezes com informação próxima dos autos: Barca do Inferno, Maria Parda, Dom Duardos, Inês Pereira. Os objectos artísticos de Gil Vicente produziram escritos, espectáculos, desenhos, músicas. Foram feitas bibliografias em 1942 por Castro e Azevedo (Lisboa: Biblioteca Nacional) e em 1980 [e 1997] por Constantine Stathatos (Londres: Grant & Cutler). O manual de base é ainda o livro de Braamcamp Freire Vida e Obras de Gil Vicente «Trovador, Mestre da Balança», escrito em 1919. Convém que o leitor conheça a Copilaçam de 1562 e os folhetos, ao menos por reproduções analógicas. Osório Mateus, 1995.
Exercício. Depois de ter lido o texto acima, procurem alguma das obras de Gil Vicente e tragam para a sala de aula "um fragmento" da obra. Postem sua contribuição antes de 4 de outubro. Na aula da quarta-feira conversaremos sobre a obra de Gil Vicente. Se quiserem podem buscar outros dramaturgos portugueses ou brasileiros e trazer informação para compartilhar na sala de aula.