viernes, 13 de abril de 2018

UMA PITADA DE POESIA LUSÓFONA

Oi pessoal,

Vamos continuar nossa macro-tarefa "Uma pitada de poesia lusófona". Eis alguns poemas de diversos autores brasileiros, portugueses, angolanos e moçambicanos. 

Exercício. Leiam os poemas e procurem informação sobre os autores e tragam outros poemas para a quarta-feira 18 de abril. Não se esqueçam de postar seu comentário no blog.

 O Relógio
Ao redor da vida do homem
há certas caixas de vidro,
dentro das quais, como em jaula,
se ouve palpitar um bicho.
Se são jaulas não é certo;
mais perto estão das gaiolas
ao menos, pelo tamanho
e quadradiço de forma.
Umas vezes, tais gaiolas
vão penduradas nos muros;
outras vezes, mais privadas,
vão num bolso, num dos pulsos.
Mas onde esteja: a gaiola
será de pássaro ou pássara:
é alada a palpitação,
a saltação que ela guarda;
e de pássaro cantor,
não pássaro de plumagem:
pois delas se emite um canto
de uma tal continuidade.
João Cabral de Melo Neto 

 
Aninha e suas pedras
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.
Cora Coralina


Língua portuguesa
Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...
Amo-te assim, desconhecida e obscura.
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!
Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,
em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!
Olavo Bilac

O Espelho
Esse que em mim envelhece
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu.
Os outros de mim,
fingindo desconhecer a imagem,
deixaram-me a sós, perplexo,
com meu súbito reflexo.
A idade é isto: o peso da luz
com que nos vemos.
Mia Couto

por milhentos caminhos
do meu desejo
passam sombras a tactear o nada;

vão
esforçadas na incerteza 
por abraçar
os pontos de interrogação da existência.

atravessam-me
arrastando
à laia de glória
grilhetas e cadeias
com estúpidos sorrisos.

são os homens
que chegaram 
e se não acharam

e os angustiados
que se ultrapassaram na vida
e se perderam na confusão;

e os que estão vindo
titubeantes
para este mundo
desconhecido dos que já chegaram

passam  por mim
e eu sigo-os através de mim.

lá vamos nós!

as sombras sem querer
com os sentidos anestesiados
como a praia que quer ser onda
alar-se em vida
na imensidade
sentir no peito
a violência das quilhas dos navios
recolher a angústia
e os últimos suspiros dos náufragos
e ficou apenas praia
a sorver ondas
e a contemplar estática
o movimento de além.

as sombras
que se esvaíram no tempo
deixaram-me
esta ânsia
e o eco múltiplo
do tilintar das suas cadeias;
às que hão-de vir
mostrarei essas cadeias quebradas
e com elas repartirei
o meu desejo de ser onda
neste desfile dos tristes
que se perdem.

seguem
rojando-se em esperanças
interrogando à morte
o que é a vida

elas vão longe
ainda vêm longe
e eu sigo-me através de mim.

Agostinho Neto