Vamos continuar nossa macro-tarefa "Uma pitada de poesia lusófona". Eis alguns poemas de diversos autores brasileiros, portugueses, angolanos e moçambicanos.
Exercício. Leiam os poemas e procurem informação sobre os autores e tragam outros poemas para a quarta-feira 18 de abril. Não se esqueçam de postar seu comentário no blog.
O Relógio
Ao redor da vida do homem
há certas caixas de vidro,
dentro das quais, como em jaula,
se ouve palpitar um bicho.
há certas caixas de vidro,
dentro das quais, como em jaula,
se ouve palpitar um bicho.
Se são jaulas não é certo;
mais perto estão das gaiolas
ao menos, pelo tamanho
e quadradiço de forma.
mais perto estão das gaiolas
ao menos, pelo tamanho
e quadradiço de forma.
Umas vezes, tais gaiolas
vão penduradas nos muros;
outras vezes, mais privadas,
vão num bolso, num dos pulsos.
vão penduradas nos muros;
outras vezes, mais privadas,
vão num bolso, num dos pulsos.
Mas onde esteja: a gaiola
será de pássaro ou pássara:
é alada a palpitação,
a saltação que ela guarda;
será de pássaro ou pássara:
é alada a palpitação,
a saltação que ela guarda;
e de pássaro cantor,
não pássaro de plumagem:
pois delas se emite um canto
de uma tal continuidade.
não pássaro de plumagem:
pois delas se emite um canto
de uma tal continuidade.
João Cabral de Melo Neto
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.
Cora Coralina
Língua portuguesa
Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...
Amo-te assim, desconhecida e obscura.
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!
Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,
em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!
Olavo Bilac
O Espelho
Esse que em mim envelhece
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu.
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu.
Os outros de mim,
fingindo desconhecer a imagem,
deixaram-me a sós, perplexo,
com meu súbito reflexo.
fingindo desconhecer a imagem,
deixaram-me a sós, perplexo,
com meu súbito reflexo.
A idade é isto: o peso da luz
com que nos vemos.
com que nos vemos.
Mia Couto
por milhentos caminhos
do meu desejo
passam sombras a tactear o nada;
vão
esforçadas na incerteza
por abraçar
os pontos de interrogação da existência.
atravessam-me
arrastando
à laia de glória
grilhetas e cadeias
com estúpidos sorrisos.
são os homens
que chegaram
e se não acharam
e os angustiados
que se ultrapassaram na vida
e se perderam na confusão;
e os que estão vindo
titubeantes
para este mundo
desconhecido dos que já chegaram
passam por mim
e eu sigo-os através de mim.
lá vamos nós!
as sombras sem querer
com os sentidos anestesiados
como a praia que quer ser onda
alar-se em vida
na imensidade
sentir no peito
a violência das quilhas dos navios
recolher a angústia
e os últimos suspiros dos náufragos
e ficou apenas praia
a sorver ondas
e a contemplar estática
o movimento de além.
as sombras
que se esvaíram no tempo
deixaram-me
esta ânsia
e o eco múltiplo
do tilintar das suas cadeias;
às que hão-de vir
mostrarei essas cadeias quebradas
e com elas repartirei
o meu desejo de ser onda
neste desfile dos tristes
que se perdem.
seguem
rojando-se em esperanças
interrogando à morte
o que é a vida
elas vão longe
ainda vêm longe
e eu sigo-me através de mim.
Agostinho Neto
Gosto da poesia muito alem de que as vezes seja difícil para mim compreender o que querem dizer os escritores. Gostei muito das poesias que você compartilhou para nós, gostei mas do poema "aninha e suas pedras" não sei a letra e bonita y clara.
ResponderEliminarGostei muito de ler estes poemas além do que já conheci de poetas da língua portuguesa. Alguns deles foram também políticos lutadores sociais, como Agostinho Neto em Angola, ou Xanana Gusmao en Timor Leste. Ambos foram finalmente presidentes em seus paises. Escohli alguns poemas deles e de Vinicius de Moraes -brasileiro- e Fernando Pessoa para a aula de amanha. Também seus biografias, pois acho que sao muito interessantes.
ResponderEliminarSe as crónicas e os romances são a forma em que son escritores falar da vida cotidiana y dos problemas políticos e sociais desde uma visão crítica, a poesia é a maneira em quien eles expresavam o sentir do povo. Com palavras concisas e muito significativas lograram descrever os sentimentos de uma época.
ResponderEliminarAlém disso, a poesia é uma grande forma de conhecer mais da língua portuguesa, porque acrescentamos nosso léxico e também conhecemos diferentes variantes do idioma a través do tempo e de lugares.
Acho que parte importante da intenção de um poema é marcar a realidade cultural, fazendo uma margen do que foi um fato explicado desde uma pessoa que é a intermediária e de alguma forma o historiador da literatura feita verso. Gostei muito dos poemas, más é preciso enmarcar a realidade de cada um.
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